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Conflitos

Quando uma conversa termina com a sensação de que ninguém entendeu ninguém.

Algumas discussões têm uma característica curiosa.

Elas começam falando sobre uma coisa e terminam falando sobre outra.

A discussão parece ser sobre uma mensagem não respondida, um atraso, uma crítica ou um comentário feito da forma errada.

Mas basta ouvir mais um pouco para perceber que há algo mais.

Uma pessoa fala sobre a mensagem, a outra fala sobre sentir que não é importante. Uma fala sobre o atraso, a outra fala sobre sentir que ficou em segundo plano. Uma fala sobre o comentário, a outra fala sobre não se sentir respeitada.

Talvez seja por isso que tantos conflitos pareçam intermináveis. Porque uma pessoa está tentando explicar a própria intenção enquanto a outra está tentando explicar a própria dor. E intenção e dor não são a mesma coisa.

O que me chama atenção é que raramente percebemos isso enquanto estamos vivendo a situação. Naquele momento, parece óbvio que estamos discutindo sobre o que aconteceu. Só mais tarde conseguimos enxergar que aquela conversa tocou em algo maior. Algo que, muitas vezes, já existia antes mesmo daquele episódio.

Às vezes o atraso não fala apenas sobre atraso. A crítica não fala apenas sobre crítica. A mensagem esquecida não fala apenas sobre uma mensagem esquecida. Algumas situações encontram medos antigos, inseguranças antigas e feridas antigas. E, quando isso acontece, a intensidade da reação costuma parecer desproporcional para quem está olhando de fora.

Talvez uma das razões pelas quais alguns conflitos se tornam tão difíceis seja justamente essa. Continuamos discutindo os fatos quando a dor já está em outro lugar.

Tentamos provar que respondemos a mensagem. Explicamos por que chegamos atrasados. Justificamos o comentário que fizemos.

Mas, muitas vezes, a outra pessoa não está procurando uma explicação. Ela está tentando falar sobre algo que aquele episódio despertou nela.

Talvez seja por isso que algumas conversas terminem com a sensação de que ninguém foi compreendido. Quanto mais uma pessoa explica o que fez, mais a outra tenta explicar o que sentiu. E ambas saem dali frustradas, convencidas de que não foram escutadas.

Talvez seja por isso que algumas discussões se repetem tanto. Mudam os cenários, mudam as pessoas, mudam os fatos, mas a dor continua sendo parecida.

E, quando olhamos com atenção, percebemos que ela quase nunca começou naquele dia.